Arquivo da tag: ciência

Professor destaque da FEBRACE 2014, Ricardo Fonseca fala com a gente em entrevista

Qual foi a sua maior motivação para se tornar professor?

Creio que a vontade de mudar o mundo, mostrar como podemos olhar de forma diferenciada ao nosso redor, dizer para os outros que, se quisermos, tudo é possível. Foi um sonho que ocorreu há 34 anos atrás, contra a família, contra tudo e todos, vim para o Nordeste e com o passar do tempo vi que não podia mais deixar, ficou entranhado no meu DNA.

 Como foi trabalhar com projetos de pesquisa e inovação na educação básica?

Muito difícil no início, com relação aos gestores e professores, por aqui não se acredita em pesquisa, muito menos pesquisa na educação básica, quebramos paradigmas, meus próprios colegas caçoam das minhas ideias e prestam um desserviço. Mas com os alunos a coisa é outra, cada aula é única, eles vibram demais, acreditam na mesma intensidade, hoje meus alunos são filhos ou até netos dos que quando comecei, virou um caso de família.

 Qual o maior desafio dos professores hoje segundo a sua opinião?

As drogas e a competição com a NET, por isso temos que utilizar as redes sociais e postar os comentários, vídeos, aulas, como querem ser celebridade serão sim, mas pelo esforço, por isso posto todos os prêmios e conquistas, para que eles se voltem para a sala de aula na intenção de saírem nas mídias. Com relação as drogas peço que não as usem, que é bem melhor se drogarem com bons livros, chocolate amargo, namorando, desenvolvendo projetos científicos voltados, principalmente, para o bem comum, tenho orgulho de dizer que eles seguem este norte e nunca tivemos problemas.

Em contraponto do maior desafio, qual o melhor aspecto de ser um professor?

O Professor é uma autoridade, um espelho, geralmente quando me pedem carteira em uma blitz, perguntam: Se o senhor é alguma autoridade se identifique, eu digo: Em sala de aula sou sim. O reconhecimento é o ponto maior, muitas vezes recebemos abraços nas ruas de pessoas que nem nos lembramos, ficamos enrolando até que alguma dica seja dada e a pessoa diz: O senhor foi meu professor em Quixadá, no ano de 1983 (por exemplo). Eu não me lembrava mais dele mas ele lembrava-se de mim, então fui importante em algum momento na vida desta pessoa. O professor pode ajudar a fazer um cidadão ou um marginal, dependendo das palavras, do incentivo, então, eu formo cidadãos, que vão formar outros e acredito que com isso o mundo possa realmente mudar.

 Como foi ganhar o Prêmio Professor Destaque?

É de todos nós, não ganhei, todos ganhamos, sabe daquela história onde não tem perdedor, onde todos ganham, ganhou a FEBRACE porque entendeu que este prêmio deveria ser criado para valorizar todos nós e o que a FEBRACE diz todo mundo endossa, ganharam os alunos que acreditaram no professor e passaram a acreditar mais ainda, ganhou o Ceará, eu ganhei também porque as pessoas acreditaram que o que eu faço é a coisa certa, em diversos momentos eu tive dúvidas quanto a isso. Inenarrável a sensação, não acreditei até ver meus alunos correndo na minha direção, fiquei flutuando, para mim foi melhor que um ator ganhar um Óscar, um artilheiro fazer um gol nos últimos segundos e seu time ganhar o campeonato, foi o reconhecimento de uma vida inteira, e olha que uma semana antes, um colega de profissão me disse que nada destes trabalhos significavam coisa alguma, que eu era um sonhador abestado, eu não precisei responder todos os que fazem a FEBRACE responderam por mim. Ainda nem consegui dormir de tanta felicidade, choro sempre que me lembro, mas entreguei ao Mestre Jesus e ao Nosso Pai estas conquistas, foi de Deus que partiu a ideia deste presente único.

Quais são seus planos para o futuro, academicamente falando?

Se eu sair para o Doutoramento, pois estou terminando o Mestrado e só não terminei porque estou envolvido com muitos projetos, as coisas não vão mais continuar, então vou permanecer abastecendo este sonho, as aulas para as Olimpíadas aos sábados continuam, os projetos continuam, as coisas vão permanecer da mesma forma até o dia que eu ainda conseguir dar uma aulinha. Não tenho outros planos só continuar o que faço, agora, com mais amor ainda.

1 comentário

Arquivado em Feiras de Ciência

Levando jovens cientistas para o público de massa? Quadro “Jovens Inventores” do Caldeirão do Huck.

O programa de auditório da Rede Globo Caldeirão do Huck começou recentemente a exibir um novo quadro denominado “Jovens Inventores”, mostrando as histórias e os projetos de jovens cientistas de todo o país. As 3 primeiras semanas do quadro incluíram a participação de jovens que participaram da FEBRACE e da MOP.

A semana de estréia do quadro em 23/11, o programa destacou a pesquisa de Letícia Vinhal Pereira, Matheus Pains Soares Santana e Welles Júnior de Oliveira de Patos de Minas de Minas Gerais que participaram da FEBRACE 2013, com esta pesquisa, então entitulada “O incrível quiabo – na medicina ele ganhou superpoderes”:

‘Inventores’: quadro estreia no Caldeirão do Huck e premia boas ideias pelo Brasil

Imagem

A segunda semana (30/11) o quadro destacou a pesquisa realizada pelos estudantes Antonio Tôrres Geracino, Francisco Jociel de F. Fernandes e Huguenberg de Oliveira Santos de Apodi, Rio Grande do Norte, entitulado “Uso de Cera de Abelha no Revestimento de Frutos” na FEBRACE 2013,  onde foram premiados com o Primeiro Lugar em Ciências Agrárias e também reconhecidos com o Primeiro Lugar em Empreendedorismo:

Inventores do Rio Grande do Norte criam cera que conserva frutas

cera

Neste mais recente final de semana, no terceiro episódio deste quadro, o programa destacou o projeto SISMAR  – Sistema Integrado a Sensores de Monitoramento de Áreas de Risco de Isaias P. Campos Júniior, participante das MOP 2012 e 2013, bem como de diversas edições da FEBRACE.

Alarme que alerta sobre desabamentos é premiado no Caldeirão

Parte 2 e Parte 3 do quadro com Isaias.

sismar

Apesar da definição “Inventores” parecer reducionista para definir jovens que estão trabalhando com pesquisa e desenvolvimento de projetos seguindo o método científico ou o método de engenharia, é ao mesmo tempo gratificante ver o público em massa reconhecer neles exemplos a serem seguidos. Como é comum em nossos discursos, o “Brasil não é só feito de samba e futebol, mas também podemos fazer ciências e engenharia”, com jovens precisam receber mais estímulo e valor.

As próximas semanas, o quadro continuará a destacar outros personagens, incluindo outros participantes da MOP e da FEBRACE, não deixe de conferir e se você acha que é uma iniciativa válida, não deixe de escrever a produção do programa e a Rede Globo que você quer ver mais iniciativas como esta.

Paralelamente continuaremos nos nossos esforços de descobrir jovens talentos em todos o país. Você pode também nos ajudar a espalhar isto. Confira:

MOP 2013 divulga os finalistas premiados.

O Comitê de Seleção da FEBRACE estará se reunindo nos próximos dias para definir os finalistas participando pela submissão direta, que se juntarão aos finalistas já selecionados pelas Feiras Afiliadas da FEBRACE para participarem como os Finalistas da FEBRACE 2014. A FEBRACE divulgará a relação de finalistas que participarão da Mostra de Finalistas em Março de 2014 no dia 18/12 no site oficial da FEBRACE: www.febrace.org.br

Não sabe por onde começar, não deixe de conferir a nova ferramenta lançada pela FEBRACE em parceria com a Intel do Brasil a plataforma de Aprendizagem Interativa em Ciências e Engenharia – APICE, lançado oficialmente alguns dias atrás, de uso gratuito: http://apice.febrace.org.br/

E para recapitular, confira abaixo (e compartilhe) o vídeo resumo de 11 anos da FEBRACE – Feira Brasileira de Ciências e Engenharia. Isto vai muito além de uma feira de ciências, é um programa continuo:

 

27 Comentários

Arquivado em Feiras de Ciência, Vale a pena Assistir, Vale a pena Ler

Para Reflexão: “A ciência brasileira não é feita por cientistas”.

O trecho abaixo foi extraído da matéria publicada no site da Agência Gestão CT&I,  leia a matéria compelta de Camila Cotta neste link.

“Não posso dizer que neurocientista é minha profissão, porque a minha profissão de cientista não existe no Brasil. Não está na tabela das profissões regulamentadas pelo Ministério do Trabalho (MTE). Para poder atuar como cientista, eu atuo como professora de nível superior, eu literalmente faço ciência nas horas vagas”, afirma a professora e neurocientista do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Suzana Herculano-Houzel.

A maior parte da ciência no Brasil por professores universitários ou por pessoas que não tem emprego nenhum, jovens cientistas chamados estudantes de pós-graduação. “A produção científica cresce ao longo dos anos por causa do número de mestres e doutores que são formados no Brasil. São esses jovens que produzem o conhecimento cientifico”, disse.

 

Deixe um comentário

Arquivado em Vale a pena Ler

Inscrições abertas para o Prêmio MERCOSUL de Ciência e Tecnologia 2013.

 

 

 

 

 

A Reunião Especializada em Ciência e Tecnologia (RECyT) do MERCOSUL anunciou na última terça-feira (25/06/2013) o tema do Prêmio MERCOSUL de Ciência e Tecnologia de 2013: “Educação para a ciência”. As inscrições estão abertas e os trabalhos podem ser enviados até o dia 19 de agosto deste ano por meio do site: http://eventos.unesco.org.br/premiomercosul/index.php/pt/.

Os trabalhos devem ser, necessariamente, voltados para a realidade do MERCOSUL e também relacionados com educação científica dirigida ao ensino médio ou alfabetização científica no ambiente escolar do nível básico.

O Prêmio é aberto a estudantes e pesquisadores do Brasil e de todos os países integrantes do MERCOSUL: Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Equador, Paraguai, Peru, Uruguai e Venezuela. Dividida em quatro categorias listadas a seguir, a premiação abrange do ensino médio ao doutorado:

  • Iniciação Científica – estudantes de ensino médio de até 21 anos, com ou sem orientação de professor – Prêmio: U$ 2,000;
  • Estudante Universitário – universitários (sem limite de idade), com ou sem orientação de professor – Prêmio: U$ 3,500;
  • Jovem Pesquisador – graduados de até 35 anos – Prêmio: U$ 5,000;
  • Integração – equipes de pesquisadores graduados de pelo menos dois dos países listados (sem limite de idade) – Prêmio: U$ 10,000.

O Prêmio, criado pela RECyT, é patrocinado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação do Brasil (MCTI/Brasil), pelo Observatório Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação da Venezuela (ONCTI/Venezuela) e pela Confederação Nacional da Indústria (CNI/Brasil), e apoiado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq/Brasil), pelo Movimento Brasil Competitivo (MBC), pelo Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação Produtiva da Argentina, pelo Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia do Paraguai e pelo Ministério de Educação e Cultura do Uruguai.

A cerimônia de entrega do Prêmio MERCOSUL de Ciência e Tecnologia de 2013 será realizada em data e local a serem definidos pela RECyT/MERCOSUL. Para mais informações, acesse o site: http://eventos.unesco.org.br/premiomercosul/index.php/pt/.

Deixe um comentário

Arquivado em Eventos

Ensino da Física no Brasil segundo Richard Feynman

Segue um texto extraído do livro “ O Senhor está Brincando, Sr. Feynman?” de Richard P. Feynman (físico norte americano  ganhador do prêmio Nobel de Física em 1965). Ele conta sobre sua experiência de ensino no Brasil na década de 50, mas muito do que está escrito nesse texto é bem atual e reflete a situação do ensino da Física.

Ensino da Física no Brasil segundo Richard Feynman

Em relação à educação no Brasil, tive uma experiência muito interessante. Eu estava dando aulas para um grupo de estudantes que se tornariam professores, uma vez que àquela época não havia muitas oportunidades no Brasil para pessoal qualificado em ciências. Esses estudantes já tinham feito muitos cursos, e esse deveria ser o curso mais avançado em eletricidade e magnetismo – equações de Maxwell, e assim por diante.

Descobri um fenômeno muito estranho: eu podia fazer uma pergunta e os alunos respondiam imediatamente. Mas quando eu fizesse a pergunta de novo – o mesmo assunto e a mesma pergunta, até onde eu conseguia –, eles simplesmente não conseguiam responder! Por exemplo, uma vez eu estava falando sobre luz polarizada e dei a eles alguns filmes polaróide.

O polaróide só passa luz cujo vetor elétrico esteja em uma determinada direção; então expliquei como se pode dizer em qual direção a luz está polarizada, baseando-se em se o polaróide é escuro ou claro.

Primeiro pegamos duas filas de polaróide e giramos até que elas deixassem passar a maior parte da luz. A partir disso, podíamos dizer que as duas fitas estavam admitindo a luz polarizada na mesma direção – o que passou por um pedaço de polaróide também poderia passar pelo outro. Mas, então, perguntei como se poderia dizer a direção absoluta da polarização a partir de um único polaróide.

Eles não faziam a menor idéia.

Eu sabia que havia um pouco de ingenuidade; então dei uma pista: “Olhe a luz refletida da baía lá fora”.

Ninguém disse nada.

Então eu disse: “Vocês já ouviram falar do Ângulo de Brewster?”

– Sim, senhor! O Ângulo de Brewster é o ângulo no qual a luz refletida de um meio com um índice de refração é completamente polarizada.

– E em que direção a luz é polarizada quando é refletida?

– A luz é polarizada perpendicular ao plano de reflexão, senhor. Mesmo hoje em dia, eu tenho de pensar; eles sabiam fácil! Eles sabiam até a tangente do ângulo igual ao índice!
Eu disse: “Bem?”

Nada ainda. Eles tinham simplesmente me dito que a luz refletida de um meio com um índice, tal como a baía lá fora, era polarizada: eles tinham me dito até em qual direção ela estava polarizada.

Eu disse: “Olhem a baía lá fora, pelo polaróide. Agora virem o polaróide”.

– “Ah! Está polarizada”!, eles disseram.

Depois de muita investigação, finalmente descobri que os estudantes tinham decorado tudo, mas não sabiam o que queria dizer. Quando eles ouviram “luz que é refletida de um meio com um índice”, eles não sabiam que isso significava um material como a água. Eles não sabiam que a “direção da luz” é a direção na qual você vê alguma coisa quando está olhando, e assim por diante. Tudo estava totalmente decorado, mas nada havia sido traduzido em palavras que fizessem sentido. Assim, se eu perguntasse: “O que é o Ângulo de Brewster?”, eu estava entrando no computador com a senha correta. Mas se eu digo: “Observe a água”, nada acontece – eles não têm nada sob o comando “Observe a água”.

Depois participei de uma palestra na faculdade de engenharia. A palestra foi assim: “Dois corpos… são considerados equivalentes… se torques iguais… produzirem… aceleração igual. Dois corpos são considerados equivalentes se torques iguais produzirem aceleração igual”. Os estudantes estavam todos sentados lá fazendo anotações e, quando o professor repetia a frase, checavam para ter certeza de que haviam anotado certo. Então eles anotavam a próxima frase, e a outra, e a outra. Eu era o único que sabia que o professor estava falando sobre objetos com o mesmo momento de inércia e era difícil descobrir isso.

Eu não conseguia ver como eles aprenderiam qualquer coisa daquilo. Ele estava falando sobre momentos de inércia, mas não se discutia quão difícil é empurrar uma porta para abrir quando se coloca muito peso do lado de fora, em comparação quando você coloca perto da dobradiça – nada!

Depois da palestra, falei com um estudante: “Vocês fizeram uma porção de anotações – o que vão fazer com elas?”

– Ah, nós as estudamos, ele diz. Nós teremos uma prova.

– E como vai ser a prova?

– Muito fácil. Eu posso dizer agora uma das questões. Ele olha em seu caderno e diz: “Quando dois corpos são equivalentes?” E a resposta é: “Dois corpos são considerados equivalentes se torques iguais produzirem aceleração igual”. Então, você vê, eles podiam passar nas provas, “aprender” essa coisa toda e não saber nada, exceto o que eles tinham decorado.

Então fui a um exame de admissão para a faculdade de engenharia. Era uma prova oral e eu tinha permissão para ouvi-la. Um dos estudantes foi absolutamente fantástico: ele respondeu tudo certinho! Os examinadores perguntaram a ele o que era diamagnetismo e ele respondeu perfeitamente. Depois eles perguntaram: “Quando a luz chega a um ângulo através de uma lâmina de material com uma determinada espessura, e um certo índice N, o que acontece com a luz?

– Ela aparece paralela a si própria, senhor – deslocada.

– E em quanto ela é deslocada?

– Eu não sei, senhor, mas posso calcular. Então, ele calculou. Ele era muito bom. Mas, a essa época, eu tinha minhas suspeitas.

Depois da prova, fui até esse brilhante jovem e expliquei que eu era dos Estados Unidos e que eu queria fazer algumas perguntas a ele que não afetariam, de forma alguma, os resultados da prova. A primeira pergunta que fiz foi: “Você pode me dar algum exemplo de uma substância diamagnética?”

– Não.

Aí eu perguntei: “Se esse livro fosse feito de vidro e eu estivesse olhando através dele alguma coisa sobre a mesa, o que aconteceria com a imagem se eu inclinasse o copo?”

– Ela seria defletida, senhor, em duas vezes o ângulo que o senhor tivesse virado o livro.

Eu disse: “Você não fez confusão com um espelho, fez?”

– Não senhor!

Ele havia acabado de me dizer na prova que a luz seria deslocada, paralela a si própria e, portanto, a imagem se moveria para um lado, mas não seria alterada por ângulo algum. Ele havia até mesmo calculado em quanto ela seria deslocada, mas não percebeu que um pedaço de vidro é um material com um índice e que o cálculo dele se aplicava à minha pergunta.

Dei um curso na faculdade de engenharia sobre métodos matemáticos na física, no qual tentei demonstrar como resolver os problemas por tentativa e erro. É algo que as pessoas geralmente não aprendem; então comecei com alguns exemplos simples para ilustrar o método. Fiquei surpreso porque apenas cerca de um entre cada dez alunos fez a tarefa. Então fiz uma grande preleção sobre realmente ter de tentar e não só ficar sentado me vendo fazer.

Depois da preleção, alguns estudantes formaram uma pequena delegação e vieram até mim, dizendo que eu não havia entendido os antecedentes deles, que eles podiam estudar sem resolver os problemas, que eles já haviam aprendido aritmética e que essa coisa toda estava abaixo do nível deles.

Então continuei a aula e, independente de quão complexo ou obviamente avançado o trabalho estivesse se tornando, eles nunca punham a mão na massa. É claro que eu já havia notado o que acontecia: eles não conseguiam fazer!

Uma outra coisa que nunca consegui que eles fizessem foi perguntas. Por fim, um estudante explicou-me: “Se eu fizer uma pergunta para o senhor durante a palestra, depois todo mundo vai ficar me dizendo: “Por que você está fazendo a gente perder tempo na aula? Nós estamos tentando aprender alguma coisa, e você o está interrompendo, fazendo perguntas”.

Era como um processo de tirar vantagens, no qual ninguém sabe o que está acontecendo e colocam os outros para baixo como se eles realmente soubessem. Eles todos fingem que sabem, e se um estudante faz uma pergunta, admitindo por um momento que as coisas estão confusas, os outros adotam uma atitude de superioridade, agindo como se nada fosse confuso, dizendo àquele estudante que ele está desperdiçando o tempo dos outros.

Expliquei a utilidade de se trabalhar em grupo, para discutir as dúvidas, analisá-las, mas eles também não faziam isso porque estariam deixando cair a máscara se tivessem de perguntar alguma coisa a outra pessoa. Era uma pena! Eles, pessoas inteligentes, faziam todo o trabalho, mas adotaram essa estranha forma de pensar, essa forma esquisita de autopropagar a “educação”, que é inútil, definitivamente inútil!

Uma palestra para as autoridades brasileiras

Ao final do ano acadêmico, os estudantes pediram-me para dar uma palestra sobre minhas experiências com o ensino no Brasil. Na palestra, haveria não só estudantes, mas também professores e oficiais do governo. Assim, prometi que diria o que quisesse. Eles disseram: “É claro. Esse é um país livre”.

Aí eu entrei, levando os livros de física elementar que eles usaram no primeiro ano de faculdade. Eles achavam esses livros bastante bons porque tinham diferentes tipos de letra – negrito para as coisas mais importantes para se decorar, mais claro para as coisas menos importantes, e assim por diante.

Imediatamente, alguém disse: “Você não vai falar sobre o livro, vai? O homem que o escreveu está aqui, e todo mundo acha que esse é um bom livro”.

– Você me prometeu que eu poderia dizer o que quisesse. O auditório estava cheio. Comecei definindo ciência como um entendimento do comportamento da natureza. Então, perguntei: “Qual um bom motivo para lecionar ciência? É claro que país algum pode considerar-se civilizado a menos que… pá, pá, pá”. Eles estavam todos concordando, porque eu sei que é assim que eles pensam.

Aí eu disse: “Isso, é claro, é absurdo, porque qual o motivo pelo qual temos de nos sentir em pé de igualdade com outro país? Nós temos de fazer as coisas por um bom motivo, uma razão sensata; não apenas porque os outros países fazem”. Depois, falei sobre a utilidade da ciência e sua contribuição para a melhoria da condição humana, e toda essa coisa – eu realmente os provoquei um pouco.
Daí eu disse: “O principal propósito da minha apresentação é provar aos senhores que não se está ensinando ciência alguma no Brasil!”

Eu os vejo se agitar, pensando: “O quê? Nenhuma ciência? Isso é loucura! Nós temos todas essas aulas”.

Então eu digo que uma das primeiras coisas a me chocar quando cheguei ao Brasil foi ver garotos da escola elementar em livrarias, comprando livros de física. Havia tantas crianças aprendendo física no Brasil, começando muito mais cedo do que as crianças nos Estados Unidos, que era estranho que não houvesse muitos físicos no Brasil – por que isso acontece? Há tantas crianças dando duro e não há resultado.

Então eu fiz a analogia com um erudito grego que ama a língua grega, que sabe que em seu país não há muitas crianças estudando grego. Mas ele vem a outro país, onde fica feliz em ver todo mundo estudando grego – mesmo as menores crianças nas escolas elementares. Ele vai ao exame de um estudante que está se formando em grego e pergunta a ele: “Quais as idéias de Sócrates sobre a relação entre a Verdade e a Beleza?” – e o estudante não consegue responder. Então ele pergunta ao estudante: “O que Sócrates disse a Platão no Terceiro Simpósio?” O estudante fica feliz e prossegue: “Disse isso, aquilo, aquilo outro” – ele conta tudo o que Sócrates disse, palavra por palavra, em um grego muito bom.

Mas, no Terceiro Simpósio, Sócrates estava falando exatamente sobre a relação entre a Verdade e a Beleza!

O que esse erudito grego descobre é que os estudantes em outro país aprendem grego aprendendo primeiro a pronunciar as letras, depois as palavras e então as sentenças e os parágrafos. Eles podem recitar, palavra por palavra, o que Sócrates disse, sem perceber que aquelas palavras gregas realmente significam algo. Para o estudante, elas não passam de sons artificiais. Ninguém jamais as traduziu em palavras que os estudantes possam entender.

Eu disse: “É assim que me parece quando vejo os senhores ensinarem ‘ciência’ para as crianças aqui no Brasil” (Uma pancada, certo?)

Então eu ergui o livro de física elementar que eles estavam usando. “Não são mencionados resultados experimentais em lugar algum desse livro, exceto em um lugar onde há uma bola, descendo um plano inclinado, onde ele diz a distância que a bola percorreu em um segundo, dois segundos, três segundos, e assim por diante. Os números têm Erros – ou seja, se você olhar, você pensa que está vendo resultados experimentais, porque os números estão um pouco acima ou um pouco abaixo dos valores teóricos. O livro fala até sobre ter de corrigir os erros experimentais – muito bem. No entanto, uma bola descendo em um plano inclinado, se realmente for feito isso, tem uma inércia para entrar em rotação e, se você fizer a experiência, produzirá cinco sétimos da resposta correta, por causa da energia extra necessária para a rotação da bola. Dessa forma, o único exemplo de ‘resultados’ experimentais é obtido de uma experiência falsa. Ninguém jogou tal bola, ou jamais teriam obtido tais resultados!”

“Descobri mais uma coisa”, eu continuei. “Ao folhear o livro aleatoriamente e ler uma sentença de uma página, posso mostrar qual é o problema – como não há ciência, mas memorização, em todos os casos. Então, tenho coragem o bastante para folhear as páginas agora em frente a este público, colocar meu dedo em uma página, ler e provar para os senhores.”

Eu fiz isso. Brrrrrrrup – coloquei meu dedo e comecei a ler: “Triboluminescência. Triboluminescência é a luz emitida quando os cristais são friccionados…”

Eu disse: “E aí, você teve alguma ciência? Não! Apenas disseram o que uma palavra significa em termos de outras palavras. Não foi dito nada sobre a natureza – quais cristais produzem luz quando você os fricciona, por que eles produzem luz? Alguém viu algum estudante ir para casa e experimentar isso? Ele não pode”.

“Mas, se em vez disso, estivesse escrito: ‘Quando você pega um torrão de açúcar e o fricciona com um par de alicates no escuro, pode-se ver um clarão azulado. Alguns outros cristais também fazem isso. Ninguém sabe o motivo. O fenômeno é chamado triboluminescência’. Aí alguém vai para casa e tenta. Nesse caso, há uma experiência da natureza.” Usei aquele exemplo para mostrar a eles, mas não faria qualquer diferença onde eu pusesse meu dedo no livro; era assim em quase toda parte.

Por fim, eu disse que não conseguia entender como alguém podia ser educado neste sistema de autopropagação, no qual as pessoas passam nas provas e ensinam os outros a passar nas provas, mas ninguém sabe nada. “No entanto”, eu disse, “devo estar errado. Há dois estudantes na minha sala que se deram muito bem, e um dos físicos que eu sei que teve sua educação toda no Brasil. Assim, deve ser possível para algumas pessoas achar seu caminho no sistema, ruim como ele é.”

Bem, depois de eu dar minha palestra, o chefe do departamento de educação em ciências levantou e disse: “O Sr. Feynman nos falou algumas coisas que são difíceis de se ouvir, mas parece que ele realmente ama a ciência e foi sincero em suas críticas. Assim sendo, acho que devemos prestar atenção a ele. Eu vim aqui sabendo que temos algumas fraquezas em nosso sistema de educação; o que aprendi é que temos um câncer!” – e sentou-se.

Isso deu liberdade a outras pessoas para falar, e houve uma grande agitação. Todo mundo estava se levantando e fazendo sugestões. Os estudantes reuniram um comitê para mimeografar as palestras, antecipadamente, e organizaram outros comitês para fazer isso e aquilo.

Então aconteceu algo que eu não esperava de forma alguma. Um dos estudantes levantou-se e disse: “Eu sou um dos dois estudantes aos quais o Sr. Feynman se referiu ao fim de seu discurso. Eu não estudei no Brasil; eu estudei na Alemanha e acabo de chegar ao Brasil”.

O outro estudante que havia se saído bem em sala de aula tinha algo semelhante a dizer. O Professor que eu havia mencionado levantouse e disse: “Estudei aqui no Brasil durante a guerra quando, felizmente, todos os professores haviam abandonado a universidade: então aprendi tudo lendo sozinho. Dessa forma, na verdade, não estudei no sistema brasileiro”.

Eu não esperava aquilo. Eu sabia que o sistema era ruim, mas 100 por cento – era terrível!

Uma vez que eu havia ido ao Brasil por um programa patrocinado pelo Governo dos Estados Unidos, o Departamento de Estado pediu me que escrevesse um relatório sobre minhas experiências no Brasil, e escrevi os principais pontos do discurso que eu havia acabado de fazer. Mais tarde descobri, por vias secretas, que a reação de alguém no Departamento de Estado foi: “Isso prova como é perigoso mandar alguém tão ingênuo para o Brasil. Pobre rapaz; ele só pode causar problemas. Ele não entendeu os problemas”. Bem pelo contrário! Acho que essa pessoa no Departamento de Estado era ingênua em pensar que, porque viu uma universidade com uma lista de cursos e descrições, era assim que era.

Fonte: O Senhor está Brincando, Sr. Feynman? – Blog Physics Act

4 Comentários

Arquivado em Opinião, Vale a pena Ler

Analfabetismo científico

Analfabetismo científico

Carlos Orsi

A edição da revista Science que circula esta semana traz uma série de artigos sobre “alfabetização científica”, ou como transmitir para a população em geral — e para as crianças, em particular — o mínimo de conhecimento científico necessário para navegar no mundo contemporâneo.

O analfabetismo científico é um problema em praticamente todo o mundo. Com o agravante de que, diferentemente do analfabetismo literal, muitas vezes não chega a ser reconhecido como um problema, mesmo entre as parcelas mais educadas e/ou poderosas da sociedade.

Parafraseando um antigo aforismo de C.P. Snow, um milionário que ignore quem foi Machado de Assis acaba visto como uma figura folclórica, excêntrica; um que ignore a segunda lei da termodinâmica é só mais um cara normal. Além, claro, de uma ótima vítima para esquemas de moto-perpétuo.

Este, aliás, é um ponto que passa em branco na maioria dos discursos sobre a alfabetização científica: quando se reconhece o valor do ensino e da divulgação da ciência, o foco costuma repousar sobre os benefícios econômicos — pesquisa e desenvolvimento,  novos produtos, engenharia — que são, evidentemente, reais e importantes. Mas pouco se fala sobre a educação científica como fator de cidadania e, se me permitem o termo, de defesa pessoal.

Mais do que uma instituição acadêmica ou de um conjunto de princípios, leis e teorias a assimilar, ciência é um método, uma disciplina, uma postura. De forma bem resumida, é o hábito de não aceitar afirmações como verdadeiras sem prova, e de avaliar criticamente toda prova apresentada. Ciência, enfim, é uma ferramenta de detecção de falsidades e de busca da verdade.

Tão ou mais importante do que conhecer os resultados obtidos por essa ferramenta é familiarizar-se com o instrumento em si. Empunhá-lo, acostumar-se com seu peso, ver como sua lâmina é afiada e, por fim, aprender a usá-lo no dia-a-dia, ao lidar com coisas tão díspares quanto promessas de políticos, discursos de autoajuda, comerciais de produtos milagrosos, ofertas de crediário, terapias e, sim, esquemas de moto-perpétuo.

Um do artigos da Science trata, aliás, exatamente disso: Jonathan Osborne, da Universidade Stanford, queixa-se de que há muito pouco debate crítico nas aulas de ciências.

“Como uma das marcas registradas do cientista é o ceticismo crítico e racional, a ausência de oportunidades para desenvolver a capacidade de pensar e discutir cientificamente parece ser uma fraqueza significativa na prática educacional contemporânea”, escreve Osborne.

Há alguns anos, a jornalista de ciência do New York Times Natalie Angier escreveu um livro — premiado — chamado The Canon (”O Cânone”), que buscava explicar o que há de mais básico na ciência atual. A partir de um primeiro capítulo sobre, exatamente, o pensamento científico, a obra se lança numa exploração da matemática, biologia, física, química, geologia e astronomia.

São pouco mais de 260 páginas e não creio que tenha sido traduzido, infelizmente. Mas se todos tivessem contato com as ideias e princípios que descreve, este seria um mundo com menos vítimas e melhores cidadãos.

Fonte: http://blogs.estadao.com.br/carlos-orsi/2010/04/22/analfabetismo-cientifico/

Deixe um comentário

Arquivado em Notícias, Opinião

Divulgação Científica na TV.

Divulgação Científica na TV.

A cada minuto, cientistas fazem descobertas importantes para a sociedade. Isso exige que pesquisadores, jornalistas e professores desenvolvam ferramentas para tornar essas informações compreensíveis a todos. Roseli de Deus Lopes, diretora da Estação Ciência, José Renato Monteiro, curador da mostra Ver Ciência, e Maurício Tuffani, assessor de imprensa da Unesp e ex-editor-chefe da revista Galileu, discutem os recursos mais atuais para comunicar a ciência de forma clara, simples
e atraente.

Participe de mais esse debate comemorativo aos 10 anos da TV USP!
Evento gratuito e aberto a todas as pessoas.
Dia: 16/10/08
Horário: 14h
Local: Estação Ciência – Auditório Ernst W. Hamburger  (Rua Guaicurus,
 1394 – Lapa. Ao lado do Terminal Lapa)

Inscrições: aline.eredia@usp.br

Realização
TV USP

Patrocinador Exclusivo
Banco Santander

Apoio
Estação Ciência
EEM
IPTV

2 Comentários

Arquivado em Eventos, Notícias