A ciência para superar desigualdades

Para o Brasil avançar, é necessário ter a coragem de rever políticas inadequadas. Ter uma visão política mais pública e menos particular

O Rio de Janeiro sediou nesta semana o sexto Fórum Mundial de Ciência (FMC), evento que reuniu 800 pessoas de todo o mundo.

O tema, Ciência para o Desenvolvimento Sustentável, gerou apresentações e debates acalorados que, se pudessem ser resumidos em uma frase, esta seria: a grande preocupação atual é gerar conhecimento que sirva para resolver ou minimizar os efeitos dos problemas globais que a humanidade vivencia, além de convencer governantes e sociedade de que sem ciência não haverá desenvolvimento sustentável.

Se pensarmos na representação da ciência e dos cientistas há poucas décadas, vamos observar que uma mudança de rota vem se desenhando, sobretudo a partir das constatações referentes às alterações que o crescimento populacional e as ações antropogênicas causam ao ambiente global.

As mudanças climáticas e o consequente aumento de desastres naturais, as demandas por alimentação, energia e água, as desigualdades sociais e a pobreza requerem que cientistas assumam a responsabilidade por alertar e orientar governos e pessoas sobre os instrumentos que a ciência oferece para a mitigação dos problemas globais.

A declaração do sexto FMC destaca as questões principais nas quais a ciência e os cientistas devem atuar para contribuir com a melhoria da qualidade de vida. São elas: a cooperação científica internacional e ações nacionais coordenadas, infraestrutura para a pesquisa e acesso às fontes sobre conhecimentos estratégicos para o desenvolvimento sustentável; a educação para diminuir as desigualdades e promover a ciência e a inovação; a responsabilidade ética; a melhoria do diálogo com a sociedade e o setor produtivo em questões ligadas à sustentabilidade; e mecanismos sustentáveis para o financiamento.

O tema do fórum resultou de uma extensa agenda de debates, trabalhos e propostas apresentados durante os encontros anteriores, que tiveram origem na Conferência Mundial de Ciência, organizada pela Unesco em Budapeste em 1999. Desde 2003, o evento passou a ser realizado a cada dois anos naquela cidade, sob os auspícios da Unesco.

O fato de o Brasil ser escolhido para realizar pela primeira vez o FMC fora da Hungria, e organizado pela Academia Brasileira de Ciência, com a participação de entidades como a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, significa que nossa ciência atingiu a maturidade e conquistou credibilidade.

Contudo, apesar da colocação entre as oito maiores economias do mundo, o Brasil é o quarto país com maior desigualdade da América Latina. A nossa educação vai mal. Os dados do Enem demonstram que o desempenho em ciências vem caindo, o que é preocupante.

Se o Brasil quiser ocupar um lugar de destaque na economia mundial e deixar de ser um país que vende commodities, terá que investir pesado em educação e ciência. Recursos financeiros são fundamentais, mas não são tudo.

É necessário ter a coragem de rever políticas inadequadas. Ter uma visão política mais pública e menos particular. Isso nos mostrou claramente o sexto FMC, e sobre essas questões devemos refletir e agir.

HELENA B. NADER, 66, professora titular de medicina na Universidade Federal do Estado de São Paulo (Unifesp), é presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC)

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